Em um cenário cada vez mais digitalizado, onde interações sociais e serviços governamentais migram para a web, o Brasil ainda enfrenta um desafio significativo: 28 milhões de seus cidadãos permanecem sem acesso à internet. Embora esse número tenha diminuído, ele ressalta uma profunda barreira que distancia uma parcela considerável da população das oportunidades e necessidades da era digital. A pesquisa TIC Domicílios, referência no setor, não apenas quantifica essa exclusão, mas também acende um alerta sobre a qualidade do acesso entre aqueles que já estão conectados.
Especialistas ouvidos pelo Canaltech apontam caminhos cruciais para reduzir o contingente de não usuários e, igualmente importante, assegurar que o acesso à internet seja de fato transformador para todos os brasileiros.
O Retrato dos Desconectados e a Urgência Social
Para a pesquisa, é considerado não usuário quem não acessou a web pelo menos uma vez nos últimos três meses, seguindo a metodologia global da União Internacional de Telecomunicações (ONU). A maioria desses 28 milhões reside em áreas urbanas, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste. O perfil demográfico revela uma predominância de homens, pessoas identificadas como pretas ou pardas e, economicamente, grande parte pertencente às classes D e E.
Um dado particularmente preocupante é a faixa etária: mais da metade dos não usuários tem 60 anos ou mais. Para Fabio Storino, coordenador da pesquisa TIC Domicílios, essa parcela reflete um grupo que não cresceu com a tecnologia e, em muitos casos, não tem interesse em adotá-la. A falta de interesse ou necessidade é, de fato, o segundo motivo mais comum para a ausência de acesso, atrás apenas de “não saber usar”, sendo mais prevalente entre os idosos.
A doutora em Ciências Sociais pela UNICAMP e coordenadora de pesquisa do centro InternetLab, Stephanie Lima, destaca a gravidade desse cenário diante da constante digitalização de serviços essenciais. Plataformas como o Gov.br, para acesso a benefícios, e o Meu SUS Digital, para serviços de saúde, operam exclusivamente no ambiente online. “Todos nós precisamos usar o Gov.br, para fazer inúmeras coisas: acessar o INSS, o SUS. Você também precisa do celular e de um aplicativo do governo. E sabemos que a maioria das pessoas que precisam acessar esses aplicativos são pessoas de classes populares”, comenta Lima, sublinhando a urgência de levar esses serviços a toda a população.
Além do Acesso: O Desafio da Conectividade Significativa
Com 168 milhões de brasileiros usando a internet regularmente e 86% dos domicílios conectados em 2025 (um salto significativo dos 51% de uma década atrás), o aumento do acesso é inegável. Contudo, essa expansão não se traduz automaticamente em uma experiência de qualidade para todos. O Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), responsável pela pesquisa nacional, introduz o conceito de “conectividade significativa”. Isso significa que não basta apenas fornecer o acesso; é imperativo garantir uma experiência estável e de qualidade, baseada em quatro fatores principais: velocidade, dispositivo, frequência de uso e franquia de dados.
Fabio Storino ressalta a disparidade: “Imagine uma pessoa que tem recursos financeiros, classe A, que mora numa região que tem oferta de uma internet rápida por fibra ótica, sem cair o sinal, pode navegar à vontade e que acessa de um computador ou dispositivo de tela grande. Compare com uma pessoa que só acessa por meio de um telefone celular, uma tela pequena, mais limitada, com uma conexão móvel, exclusivamente móvel, um plano limitado, um plano pré-pago, com algumas áreas, algumas regiões que ela circula que não tem sinal, não pega o celular. As duas estão conectadas, mas a diferença de qualidade de conexão é muito grande”.
Stephanie Lima complementa, apontando o acesso exclusivo por redes móveis e o uso de celulares como barreiras significativas para a qualidade. “Quando você olha, com mais atenção para qual é o dispositivo que as pessoas estão usando, você percebe que pessoas das classes mais baixas, mulheres e negras, só acessam a internet via celular. O fato de você usar exclusivamente pelo celular tem uma limitação da qualidade de acesso ao serviço”, explica.
Políticas Públicas para Uma Inclusão Digital Completa
Para derrubar as barreiras da exclusão e da conectividade precária, é essencial uma abordagem multifacetada que envolva infraestrutura, acesso a redes de qualidade e o desenvolvimento de habilidades digitais. Fábio Storino reconhece que, devido à parcela de pessoas sem interesse, a universalização não deve atingir 100%, mas o foco deve ser garantir que “todos aqueles que queiram se conectar possam se conectar”.
José Vitor Pereira, advogado do coletivo jurídico AqualtuneLab, sugere políticas públicas direcionadas para a conectividade significativa. Ele defende:
- Planos de internet mais acessíveis: Combater a assimetria de preços, onde planos mais caros oferecem um custo por GB menor.
- Acesso a dispositivos diversos: Facilitar a aquisição de computadores e outros aparelhos que permitam uma experiência de usuário mais completa, indo além do celular.
- Espaços públicos com conexão de qualidade: Estruturar bibliotecas e centros culturais com internet de alta velocidade e dispositivos disponíveis para uso, garantindo acesso a quem não tem em casa ou depende exclusivamente do celular.
- Letramento digital: Desenvolver habilidades digitais básicas para garantir segurança, privacidade e domínio das ferramentas online, incentivando “usos éticos e educativos com IA, fazer transferências econômicas e se comunicar”.
A inclusão digital no Brasil é um processo complexo, que vai além da simples oferta de sinal. Exige um compromisso com a qualidade, a acessibilidade econômica e o desenvolvimento de competências para que todos os brasileiros possam verdadeiramente participar e se beneficiar da sociedade digital.















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